Foi uma decisão meio repentina: combinação de alguns dias relativamente livres e uma oferta de aluguel de carro a um preço razoável. Então cheguei aqui sem preparar muito. Saí de Mafra ontem pela manhã, e quase por acaso ainda consegui visitar um projeto lindo de sistema agroflorestal em Golegã no caminho para o norte. Talvez eu escreva sobre isso outro dia. Por enquanto, vou somente registrar coisas aqui enquanto estão frescas na mente.
Minha intenção nesse bate-volta é visitar as aldeias rurais de onde parte dos meus antepassados veio. A geração mais antiga da minha família paterna que eu havia conhecido em vida, meus bisavós, já nasceu no Brasil. O Vô Berto e a vó Ruth vinham de famílias de padeiros portugueses: os Pereira da Fonseca, vindos de Gove; e os Nunes Bastos, de Fermelã. Eu cresci sem escutar muito sobre esses lugares e esse tempo, mas um primo afastado - historiador, por acaso - sabe de muitas partes.
Rumei primeiro a Fermelã, sem mais expectativa do que dar uma volta pela região e observar o que sentia. É uma aldeia rural, não muito distante de Aveiro, para cuja Ria fluem as águas da região. Circulei um pouco pelas poucas e apertadas ruas da localidade, e em poucos minutos já tinha percorrido tudo e estava em meio a lavouras.
Parei no prédio da Junta de Freguesia, mas estava fechado. No posto de correio, conheci uma senhora chamada Berenice ("um nome que soa meio brasileiro, mas é na verdade de origem francesa", segundo ela) que me falou que havia conhecido uma Rosa Nunes, brasileira, que talvez fosse aparentada. Mas acho que não. De todo modo, já faleceu e está sepultada no cemitério local.
Achei que podia ser uma boa dica, e fui até o cemitério. É um lugar bonito, aos fundos de uma igreja azulejada. Não encontrei nenhum jazigo com os nomes Nunes Bastos (no entanto, havia muitos Nunes e muitos Bastos, e inclusive alguns Fonseca - mas é provável que qualquer cemitério em Portugal veja muitos desses nomes). E de todo modo, grande parte dos jazigos era de pessoas falecidas dos anos 1990 para cá, então pensei que talvez os nomes do fim do século XIX já nem estejam mais lá.
Segui viagem para um hostel em Pinheiro da Bemposta. Uma das coisas que já aprendi nessa curta viagem foi que essa região tem um tráfego intenso de peregrinos rumo a uma das rotas portuguesas do Caminho de Santiago de Compostela. Esse hostel é frequentado por muitos deles. Tem uma cachoeira dentro da propriedade (cachoeiras, gatos e redes parecem estar entre os padrões do que encontro em viagens recentes). Lugar interessante para parar e pensar sobre fluxos, tempo, memória.