São Vicente, cidade da Baixada Santista do Litoral do Sul de São Paulo, é considerada a primeira vila do país, "fundada" por Martim Afonso, em 22 de janeiro de 1532. A forma como ocorreu a ocupação do seu território, a exploração dos recursos naturais e mão-de-obra, o uso e ocupação do solo, a urbanização e promoção de turismo, definiu, não só os desdobramentos de futuro da região, mas de todas as zonas costeiras do país, como réplica, padrão.
um projeto totalizante cujas forças motrizes poderão sempre buscar-se no nível do colo: ocupar um novo chão, explorar os seus bens, submeter os seus naturais (BOSI, 1992).
Não só a construção dessa materialidade, mas a própria história também foi contada sobre uma narrativa eurocentrista, branca, colonial. Sobrepondo e silenciando a memória e a história das populações locais. O quadro "A Fundação de São Vicente", traz a força desse simbolismo. Hoje sediado no Museu Paulista em uma sala suntuosa com molduras douradas, longe de seu local de "captura", a própria Praça 22 de Janeiro, em São Vicente - sucateada, povoado por moradores e animais de rua. Em condições muito distantes da precária Casa de Martim Afonso, mal conservada, esquecida.

Fundação de São Vicente na sala A-10, em 1937. Acervo do Museu Paulista da USP. Foto: Helio Nobre
É uma história presa em pálacios-mortos, onde o imagético tem mais valor, mais valia do que os ecossistemas, em um cenário que negociamos 1 hectare de floresta por USD$ 4 como algo bom, um avanço.
Aprender mesmo a gente aprende quando o saber não é mercadoria. Quando é com mestres e mestras, eles não cobram. Eles ensinam para manter o conhecimento vivo. Quando você compartilha o saber, o saber só cresce. É como as águas que ‘confluenciam’. Quando o rio encontra o outro rio, ele não deixa de ser rio. Ele passa a ser um rio maior. Nego Bispo
Aqui, propomos a sumarização dos itens da obra Fundação de São Vicente, criando novos verbetes e novas narrativas para um novo Glossário Decolonial Colaborativo. Uma versão crítica da própria antropofagia: devemos nos apropriar de tudo aquilo que nos surge, ou podemos soltar e buscar outras referências?. Para isso, vamos remontar a tela como um jogo vivo, editável, mutante. Todo o processo será abrigado e disponibilizado no Ipupiara, como memória viva desse território.
Realizamos a divisão da obra original em frames, e criamos um tutorial de montagem para que essa experiência pudesse ser replicada, e disponibilizamos aqui.
Depois colamos, como lambe-lambe, numa porta já descartada, e começamos a intervenção. Durante esse processo, listamos e nomeamos o que gostaríamos de identificar para criarmos os verbetes colaborativos.
Durante esse processo, realizamos a Metodologia do Envolvimento:
(..) o conhecimento não nasce apenas da razão abstrata, mas do corpo, do gesto, da voz, do ritual - dos sentires. São saberes desprezados pelo Ocidente, mas fundamentais para a existência da vida na Terra, transmitidos por gerações, preservados e atualizados nas práticas ancestrais e contemporâneas cotidianas (CAMARGO & NEVES, 2025).
BOSI, A. Dialética da Colonização. Companhia das Letras. 1ª Edição, 1992, 424p.
CARMARGO, C; NEVES, G. Metodologia do envolvimento: reontologização do ser e ecologias de saberes para futuros radicais. ClimaCom. Exu: Arte, epistemologia e método. Ano 12, n.29. Disponível em https://climacom.mudancasclimaticas.net.br/metodologia-do-envolvimento/. Acesso em 03 de maio de 2026.