Este vídeo no Internet Archive.
Um começo de conversa sobre documentação, memória, registro, acervos, arquivos, cuidados e manutenção.
Oi, eu sou o Felipe Fonseca UF. Se tu tá assistindo esse vídeo, é possível que a gente já se conheça ou tenha se encontrado em algum evento ou tenha se lido ou ouvido ou visto por aí pelas redes. Eu atuo há algumas décadas com projetos de tecnologia, ciência, cultura, educação, participação. E desde 2019 eu tô fora do Brasil fazendo um doutorado focado em smart cities com uma perspectiva crítica com essa ideia de cidades espertas, que no Brasil se convencionou chamar de cidades inteligentes, não sei muito bem porquê. E o tema do meu doutorado é sobre prevenção da geração de lixo e uma ideia que eu tô começando a trabalhar, de cidades generosas. Mas eu continuo interessado também em um tema que perpassou boa parte das coisas que eu fiz nessas últimas décadas, que é entender de que maneira as tecnologias podem ajudar em comunidades - e aí pode ser pensando em comunidades locais ou em comunidades de interesse distribuídas - desde o começo do ano passado, que foi... 2021. Isso, a gente se perde ainda nesse começo do ano, né? Ainda mais nessa época pandêmica. No começo de 2021, eu participei como conselheiro de um projeto que fez um levantamento a respeito das de algumas iniciativas históricas do que se chamava de inclusão digital, tentando atualizar um pouco uma conversa que essas pessoas envolvidas com esses projetos, as pessoas que são lideranças de projetos bastante interessantes e reconhecidos daquele campo da inclusão digital, tentando atualizar e trazer eh quais que eram as questões presentes nos dias de hoje. A gente sabe que algumas dessas iniciativas começaram numa época em que quase ninguém tinha acesso a dispositivos de comunicação. Começaram na época que se falava bastante de ter espaços presenciais com computadores e acesso à internet.
E hoje em dia, num cenário em que muita gente tem acesso através do celular e muitas vezes só através do celular, a gente imaginava quando começou esse pequeno estudo, esse levantamento, que as questões seriam de alguma forma diferentes. Algumas das questões eram diferentes como resultado desse levantamento e algumas eram as mesmas praticamente. A partir daí surgiu, foi feito um relatório pelo coletivo Neos, pelo Instituto Neos. Desculpem, eu sempre confundo, pessoal do Neos, me perdoem - o Instituto Neos fez um relatório a partir desse levantamento, dessas entrevistas com lideranças de projetos eh reconhecidos e históricos de inclusão digital, sempre questionando o termo inclusão digital, claro, saibam que eu também não concordo muito com ele.
E como um resultado posterior desse levantamento, a gente começou um outro projeto também, um projeto de cooperação - como foi esse levantamento - com a intenção de construir uma base de conteúdo educacional voltado para políticas públicas de tecnologia e comunidades. Essa base se chama fonte.wiki. A gente fez um website aqui, enfim, fonte.wiki é o endereço. Ele ainda tá muito inicial, por enquanto a gente tá coletando materiais, mas a ideia e e o que eu quero trazer com esse vídeo é uma provocação que surgiu enquanto a gente fazia o projeto fonte.wiki. Que a gente, nessas últimas décadas o Brasil passou por grandes oscilações né, desde o momento que a gente tinha um monte de iniciativas fazendo o que podiam, sem ter recursos, até o momento em que houve apoio institucional, políticas públicas voltadas para pensar e implementar oportunidades de transformação positiva de comunidades com tecnologias e depois um desaparecimento total dessas políticas públicas.
Essa foi uma das conclusões a que a gente chegou com o estudo ID21, que foi esse primeiro levantamento. Mas à medida que a gente construía o projeto fonte.wiki como essa ideia de fazer um repositório disponível para quem quisesse de materiais educacionais, a gente também esbarrou nas questões que tem a ver com a permanência de arquivos. E eu posso falar de diversos projetos que tinham um elemento de arquivo ou tinha um elemento de documentação que indiretamente acabava virando um arquivo vivo de projetos. Por exemplo, o portal culturadigital.br, que costumava ser financiado e mantido pelo Ministério da Cultura, que hoje, infelizmente, não existe mais. E é um acervo que desapareceu, um acervo que espero que alguém ainda tenha backup dele, mas hoje, neste momento, ele não tá disponível.
Existem diversas outras coisas das atividades que eu participei. Tem os sites e as wikis e uma série de coleções de conteúdo da rede metareciclagem, do mutirão da gambiarra, do festival e depois Rede Tropixel que exigem um trabalho. E aí numa das etapas finais do projeto fonte.wiki - nesse, pelo menos nesse momento inicial - a gente fez um encontro no começo de dezembro de 2021 tentando pensar o que seria essa ideia de arquivo.
Então, até no convite que a gente fez para esse encontro, a gente chamou ah o segundo convite que foi feito para esse encontro, eu encontrei um termo que tava vendo, eu tava vendo surgir em diferentes lugares e na Europa, que é a ideia de contra-arquivo, mas a conversa foi bem interessante e durante a conversa teve uma pessoa bastante ativa também em iniciativas semelhantes, que trouxe uma leitura distinta, pensando que não é interessante a gente pensar somente nos nossos arquivos dessas comunidades como contra-arquivos, mas sim arquivos de construção e aí pensar num outro eixo que é a ideia de cuidado com os acervos coletivos, de cuidar dos coletivos também com a memória de determinados grupos. E aí o que eu tô fazendo com esse vídeo é uma tentativa de construir.
E eu acho que assim, por isso eu tô fazendo um vídeo porque eu também não tô conseguindo ainda escrever sobre isso, um pouco porque eu tô envolvido com as atividades do meu doutorado e um pouco também porque essa ideia ainda não tá muito clara. Mas eu tô querendo pensar em como a gente constrói uma conversa que englobe diferentes práticas de documentação viva, de documentação enquanto as coisas acontecem documentação digital e compartilhamento. E quem conviveu comigo na rede metareciclagem sabe o quanto eu insistia na importância de que as pessoas documentassem suas ações, compartilhassem essas ações numa infraestrutura coletiva e permitisse que outras pessoas fizessem uso dessa documentação. Então, assim, uma coisa é a documentação viva, mas a outra também a gente pensar em práticas de garantir a permanência dessa documentação.
E como a gente garante que essa documentação vai continuar disponível para quem tá começando projetos novos hoje e inclusive como que essa documentação vai ser atualizada, porque muita coisa, a gente tá falando de - em alguns aspectos a gente fala de tecnologias, muita coisa fica obsoleta. Isso é uma outra observação que uma outra colega também fez recentemente, que eu acho importante. Então, tanto a gente pensar em criar infraestruturas para documentação de ações concretas hoje que permaneçam no tempo, quanto a gente pensar em como fazer com que essa documentação e esses acervos coletivos sejam mantidos e também atualizados. Existia uma prática que a gente tinha bastante lá no projeto Metáfora na rede metareciclagem, que era a ideia de jardinagem de wiki. Wiki, eu espero que e hoje em dia muita gente já saiba, são esses sites que permitem edição colaborativa, que muitas pessoas podem editar de maneira fácil, sem precisar saber código e ter acesso aos servidores.
E a ideia de jardinagem wiki era que não bastava a gente ter um espaço onde as pessoas colocassem conteúdo, mas que precisava ter uma ação concreta de cuidar daquilo para que ficasse acessível para outras pessoas e que as coisas não se desatualizassem. Então, eu tô achando bastante interessante essa ideia de cuidado e eu acho que uma coisa a levar em conta, e isso surgiu inclusive numa outra conversa que eu tava falando com um parceiro internacional desses projetos recentes, eh, a ideia de cuidado em português, ela tem dois sentidos, pelo menos, que são bastante interessantes de explorar. Eu acho que essa ambiguidade pode fazer parte do que a gente venha a construir na sequência. Uma delas é a ideia de cuidado como manutenção, que é concreta e prática, mas também é afetiva. Então, o cuidado, a gente cuidar das coisas é um dos sentidos possíveis. Mas cuidado também tem esse outro significado que é um aviso de que existe um perigo iminente.
E eu acho que quando a gente fala de arquivos digitais, coletivos, de comunidades de interesse, é importante a gente ter essas duas coisas. Uma é fazer o possível para envolver o máximo de pessoas que queiram participar e que tenham apreço por aquele acervo coletivo para que participem ativamente do cuidado. E a outra é a gente avisar que existe o perigo de desaparecimento ou existe o perigo de desatualização ou existe o perigo de que aquele conteúdo seja usado, inclusive de maneiras que possam minar as intenções. Eu me lembro também de alguns projetos em que eu participei que tinha a ideia de mapeamento geográfico em alguns pontos, em alguns lugares. Aquilo era uma questão complicada, porque o mapamento geográfico tinha o perigo de apontar para questões territoriais que eram delicadas. Então, a gente sempre tem que ter, eu acho que esses dois aspectos quando a gente fala desse, da documentação e da manutenção de acervos coletivos.
Então, o cuidado como vamos tomar conta coletivamente e afetivamente desse acervo ou desse conjunto de coisas que nos interessam, mas também cuidado que existe uma barreira, existe uma fronteira que é a fronteira além da qual esse conteúdo pode ficar pode ser perigoso inclusive pra gente que tem apreço por ele. Então é isso que eu quero fazer essa provocação pra gente pensar em cuidado e memória. E aí não vou nem começar a explorar as ambiguidades possíveis da ideia de memória, porque tem todos esses sentidos, tanto a memória tecnológica das placas de memória, quanto a memória individual, o quanto eu consigo recordar de coisas que passaram na minha vida, quanto essa memória coletiva, em alguns casos institucional.
Eu acho que existe uma grande conversa potencialmente interessante tanto para indivíduos que estejam atuando nessas áreas de maneira solta, quanto para comunidades específicas que tenham interesse em construir suas práticas de documentação e garantir que essa documentação seja cuidada, ou seja, mantida e atualizada. E também eu acho que existe um outro eixo aí que é o quanto instituições que trabalham ou que tm um aspecto de documentação e memória também se engajem com esse tipo de discussão de garantir permanência e cuidado ao longo do tempo com seus arquivos, acervos e documentação. Então é isso, fica esse convite em aberto. Como eu falei, eu não consegui ainda concretizar isso em um projeto. Para quem me conhece, talvez seja porque eu ainda não tenho um nome para ele. Talvez quando surgir um nome eu consiga encontrar as outras partes.
Mas também eu tô ocupado com um monte de outras coisas e queria abrir esse começo de reflexão e trazer mais pessoas para pensarem em como que a gente constrói essa conversa, pensando em possibilidade, inclusive de fazer um evento. A gente em dezembro, nesse encontro eh ligado ao projeto fonte.wiki, a gente falou sobre fazer um evento sobre fazer uma publicação. Então, o que que a gente faz nesse sentido? Essa é a primeira provocação que eu faço e espero que a gente continue essa conversa, mas tá aqui a minha parte para documentar e eu vou garantir que eu vou publicar em diferentes lugares e já vou fazer uma meta experimentação com esse vídeo que eu tô terminando aqui. É isso, um abraço e continuamos a conversa.