Escrevendo estes parágrafos inicialmente em 24/09/2025. Início do outono na Berlim que me rodeia hoje, início da primavera que cobre o Brasil para onde viajo em algumas semanas. Esse ano viajei bastante, desde o comecinho. Primeiro de janeiro foi meu terceiro dia sem viver com mxs filhxs desde o nascimento da mais velha. Eu já tinha passado períodos sem elxs, por certo. Mas sempre tinham sido tempos curtos, no máximo algumas semanas. Em 2025 seria diferente. Crianças no Brasil, eu ainda na Europa.
Desde que cheguei a Berlim, desenvolvi o hábito de perguntar às pessoas quando as conheço aqui: "o que te trouxe a Berlim?". Talvez reagindo à mudança das marés - olha a água aí, por enquanto em sentido figurado -, nos últimos tempos tenho também perguntado "o que te mantém aqui?". Faço essa pergunta a mim mesmo, e as respostas são cada vez mais tênues.
Mas aqui eu ia escrever sobre as águas. E memórias. Uma das vertentes que me fez começar a dar corpo à Coletora foi a ideia de pensar em registro e memória de ações coletivas não como armários cheios de gavetas organizados por bibliotecárixs, e sim como bacias hidrográficas. Não, ainda não sei explicar isso resumidamente de forma que faça sentido. Tem um pouco de Thackara e um pouco de Heráclito. O plano com essas páginas aqui é tentar transformar isso em palavras, ou mais que palavras.
Voltando aqui um dia depois pra continuar escrevendo sobre as águas. Faz sentido registrar datas? Uma parte do que tenho tentado explorar e desenvolver é a sensação de descolamento entre, de um lado, a documentação aberta e hipertextual, e do outro o transcorrer das coisas "do lado de fora". Memória como água. Vou adicionando umas gotas aqui e ali, e tudo se conecta em busca de sentido. Quando edito essa página aqui, me coloco em conexão direta com o que supostamente virá e com o que já foi. E mesmo que eu foque na sensação de que só o momento presente existe, estou em relação criativa com essas outras dimensões. O que eu edito aqui pode mudar o passado, ou a minha interpretação do passado, o que talvez seja a mesma coisa. O que eu edito aqui pode influenciar outras pessoas que vierem a ler essas palavras (qual versão? será que eu adicionei, removi ou mudei palavras antes de clicar em "Salvar"?), ou a mim mesmo (quando voltar aqui para reler o que salvei - daqui a cinco minutos ou cinco anos).
Percebo que meu texto tem aberto parentesis com frequência. É só uma coisa de momento, uma expansão temporária antes de retornar a um modo mais linear? Não sei. Lembro-me de ter incorporado o modo de pensar em linhas de tempo desde bem cedo na minha experiência com a internet. Comecei como blogueiro e listeiro - conseguia lidar com múltiplos fios de conversas. Mas ainda assim, fios, linearidades paralelas.
Certamente, as wikis embaralharam minha percepção e abriram novos campos. Adotei lá em 2003 e sigo até hoje. Ainda assim, fui um adepto e evangelista dos fluxos em RSS e ATOM, e mesmo que tenha no geral abandonado o hábito dos blogues e microblogues, ainda mantenho meu crescente acervo de links. E mesmo aqui: é uma coleção linear, em cronologia reversa, mas também pode ser navegada através daS tags e busca. Um (meta-)exemplo relevante nesse contexto: por muito tempo eu pensava em criar uma plataforma de aprendizado distribuído (e tenho uma sub-lista de links coletados ao longo dos anos com a tag "metalearning"). Hoje já não sei se uma plataforma digital para aprendizado distribuído faz sentido (ou então, a internet inteira já é essa platforma). Mas quero apontar aqui para essa ambiguidade entre linearidade e multi-dimensionalidade.
Quanto desvio nesse texto. E olha que nem comecei. Minha intenção era iniciar dizendo que há uns meses, antes de começar uma viagem que me acabaria me trazendo (uma vez mais) a esses temas, perguntei a minha mãe de santo sobre como me preparar. Ela me disse pra levar minha guia de Caboclo d'Oxum. E assim fiz, exercitando meu ponto. O olhar sereno, sincero respeito.